Hipertextualidade

BONILLA, Maria Helena S. Escola aprendente: desafios e possibilidades postos no contexto da sociedade do conhecimento. 2002. Tese, Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador - BA. (p. 183-188)

O hipertexto é uma forma de indexação e organização das informações. Exemplos dessa forma estão na Internet e em CD-Rom. Constituiu-se a partir da retomada e transformação de elementos de outras mídias – índice, referências cruzadas, sumário, legendas -, estando nele inclusa a dimensão audiovisual – palavras, imagens, gráficos, sons, movimento. Estes elementos, associados, dão ao documento um aspecto dinâmico e de multimídia.

No mundo digital o espaço da informação não se limita às dimensões do texto tradicional. Embora tais textos possam ser lidos aleatoriamente, os olhos do leitor possam passear ao acaso, as notas de rodapé e as referências cruzadas permitam e facilitem um estilo de leitura não linear, o texto tradicional se encontra confinado às três dimensões físicas da página que o delimitam. Já no hipertexto digital, “a expressão de uma idéia ou linha de pensamento pode incluir uma rede multidimensional de indicadores apontando para novas formulações ou argumentos, os quais podem ser evocados ou ignorados” (Negroponte, 1995:66) .

Em sua arquitetura, as informações não são ligadas linearmente. Um conjunto de nós conectados permite “processos contínuos de associações não-lineares e um elevado número de interferências e de modificações na tela. Clicando ícones, o usuário pode saltar de uma ‘janela’ para outra e transitar aleatoriamente por fotos, sons, vídeos, textos, gráficos” (Silva, 2000:14) , quase instantaneamente. Sua estrutura é um complexo modelo molecular, onde podem-se reordenar informações, expandir frases e fornecer, instantaneamente, definições de palavras. As informações podem ser esticadas ou encolhidas de acordo com as ações do leitor. As idéias podem ser abertas e analisadas com múltiplos níveis de detalhamento. Explorar um hipertexto significa desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível, pois cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira.

Segundo Lévy (1993:25-26) , o hipertexto apresenta como características seis princípios: 1) Metamorfose - uma rede hipertextual está em constante construção e renegociação; sua extensão, composição e desenho estão sempre abertos para os atores envolvidos. 2) Heterogeneidade – o hipertexto comporta e associa de todas as formas imagináveis uma gama de elementos, os mais variados possíveis (imagens, sons, palavras, sensações, modelos, conexões lógicas, pessoas, grupos, artefatos, mensagens muiltimídias, multimodais, analógicas, digitais). 3) Multiplicidade e encaixe das escalas – o hipertexto se organiza de modo “fractal”, ou seja, qualquer nó ou conexão pode revelar-se como sendo composto por toda uma rede, indefinidamente. 4) Exterioridade - a rede não possui unidade orgânica nem motor interno, sua composição e recomposição permanente dependem de um exterior indeterminado (adição de novos elementos, conexões com outras redes, excitação de elementos terminais). 5) Topologia – no hipertexto tudo funciona por proximidade, por vizinhança; o curso dos acontecimentos é definido pelos múltiplos caminhos trilhados. 6) Mobilidade dos centros – a rede não tem um centro, possui diversos centros, móveis, que saltam de um nó a outro, num constante configurar e reconfigurar de mapas.

Por apresentar essas características, o hipertexto é dinâmico, está em permanente movimento.

Com um ou dois cliques, obedecendo por assim dizer ao dedo e ao olho, ele mostra ao leitor uma de suas faces, depois outra, um certo detalhe ampliado, uma estrutura complexa esquematizada. Ele se redobra e desdobra à vontade, muda de forma, se multiplica, se corta e se cola outra vez de outra forma. Não é apenas uma rede de microtextos, mas sim um grande metatexto de geometria variável, com gavetas, com dobras. Um parágrafo pode aparecer ou desaparecer sob uma palavra, três capítulos sob uma palavra do parágrafo, um pequeno ensaio sob uma das palavras destes capítulos, e assim virtualmente sem fim, de fundo falso em fundo falso. (Lévy, 1993:41)

Podemos explorá-lo sem que aquele que o concebeu tenha o poder de determinar a centralidade do nosso percurso. Em virtude disso, o hipertexto não é lido ou interpretado como um texto clássico, ele geralmente é explorado de forma interativa. Como ele é plástico, dinâmico, dotado de uma certa autonomia de ação e reação, é impossível seguir uma seqüência predefinida. Ou seja, não há seqüência, cada “explorador” movimenta-se interligando as informações, de acordo com seus interesses e construindo ele mesmo o seu percurso, transformando-se em autor, ou seja, é ele que define seu próprio texto. “Isto se torna a norma, um novo sistema de escrita, uma metamorfose da leitura, batizada de navegação” (Lévy, 1993:37) . Também para Lemos, Cardoso, et al. (1999:71) a navegação interativa não é mais uma leitura, no sentido clássico, mas um espaço de “atenção-navegação-interação”, pois o percurso trilhado é multilinear, indeterminado a priori, depende da “ação” do “usuário-ator-navegador”. Portanto, a navegação dá à leitura um dinamismo e uma velocidade não presentes no tipo tradicional de texto.

A navegação está baseada nas indexações e associações de idéias e conceitos, organizados sob a forma de links, os quais agem como portas virtuais que abrem caminhos para outras informações. De acordo com Ribeiro e Jucá (1998) , o link não pode ser considerado apenas como uma forma eletrônica de fechar uma obra e abrir outra instantaneamente, pois isso significaria apenas uma facilitação do que fazemos cotidianamente. Para os autores, o link deve ser entendido como um

deslize entre produções textuais diferentes que, mesmo conservando as diferenças, proporciona pontos de encontro entre as mesmas que diluem a nitidez das fronteiras. Das bordas, não existe mais o surgimento de campos que se distanciam, mas a experiência de um transbordamento, de um deslize entre um campo e outro. Se isto era possível no texto impresso, o link eletrônico vem potencializar tal experiência. O diálogo entre textualidades se intensifica através dos portais chamados links. Várias textualidades confluem numa composição multivocal.

Constitui-se ele assim num entre-lugar, ou seja, em “atualizações produzidas por agenciamentos envolvendo vizinhanças estáveis e instáveis, em um movimento gerador de novos lugares e não-lugares, criando-se novas historicidades, novas identidades caracterizadas por novos atratores estranhos e, assim, um processo contínuo de auto-organização, a partir do universo da diferença” (Serpa, 2001)

Com essa organização estão dadas as condições para acabar com as hierarquias entre as informações. Cada nova informação, seja ela diversa, contraditória ou concordante, pode situar-se no mesmo nível daquela à qual estava vinculada. Para Lemos, Cardoso, et al. (1999:71) , essa  vinculação de documentos amplia o leque de informações e traz instantaneamente uma complexificação do assunto abordado.

Pode transformar-se também a relação do sujeito com a informação. Ele tem a possibilidade de deixar de ser um consumidor, um espectador passivo e passar a ser um sujeito operativo, participativo e criativo. De acordo com Silva (2000:15) , o sujeito aprende que dele mesmo depende o “gesto instaurador que cria e alimenta a experiência comunicacional entendida como dialogo com e na multiplicidade”. Como diante da informação ele pode interferir, modificar, produzir e compartilhar, não poderá aceitar mais passivamente o que é transmitido. Aprende a estabelecer novas conexões, de modo a tornar a tela um espaço híbrido de múltiplas imagens, múltiplas vozes, múltiplos textos. Com isso, aprende uma nova gramática dos meios audiovisuais, a multimídia e a hipermídia, novos parâmetros de leitura e de conhecimento.

O conhecimento deixa de situar-se no plano da emissão do saber, para emergir da atividade conexional na base do e...e. Deixa, portanto, de submeter-se ao modelo reducionista e disjuntivo do pensamento simplificador que separa emissão e recepção, e abre-se à perspectiva do pensamento complexo. O pensamento que trabalha com um número extremamente elevado de interações, de interferências que se dão entre as unidades do sistema considerado e também com as incertezas, as ambigüidades, as indeterminações, as interferências de fatores aleatórios e o papel modelador do acaso. (Silva, 2000:16)

Em virtude disso o hipertexto constitui-se uma metáfora importante para a área educacional. Como essa área trabalha com os processos de significação, com relações intersubjetivas, com heterogênese do humano, relacioná-las com redes hipertextuais pode abrir novos espaços de compreensão e atuação para as práticas pedagógicas.

É papel da escola não mais apenas a transmissão de informações, mas também o processo de atribuição de significados a elas. Para que esse processo aconteça, é necessário associá-las a outras informações, interpretá-las, tomando como referência a cultura, as experiências de vida, os conceitos nos quais os sujeitos estão imersos.  

Dar sentido a um texto é o mesmo que ligá-lo, conectá-lo a outros textos, e portanto, é o mesmo que construir um hipertexto. É sabido que pessoas diferentes irão atribuir sentidos por vezes opostos a uma mensagem idêntica. Isto porque, se por um lado o texto é o mesmo para cada um, por outro o hipertexto pode diferir completamente. O que conta é a rede de relações pela qual a mensagem será capturada, a rede semiótica que o interpretante usará para captá-la. (Lévy, 1993:72)

Uma nova informação ou uma nova mensagem, segundo Lévy (1993:23-24) , ativa imediatamente uma rede de palavras, conceitos, modelos, imagens, sons, odores, sensações, lembranças, afetos. A associação do novo com a rede contextual já dada vem modificar, complexificar, reorganizar, retificar o hipertexto mental, fazendo com que algumas conexões sejam reforçadas, outras caiam aos poucos em desuso. Dessa forma, a imensa rede associativa que constitui nosso universo mental encontra-se em metamorfose permanente. “Um novo fio tecido modifica o sentido e o significado de todos os fios da teia” (Serpa, 2000a) .

O hipertexto informático “oferece uma nova forma de estabelecimento desta teia, multiplicando o número de links possíveis e tornando, tanto os links quanto sua interrelação, externos à consciência do sujeito” (Guimarães Jr, 1997) , ao reunir não apenas textos, mas também redes de associações, anotações e comentários às quais eles são vinculados pelas pessoas, em todo o mundo, principalmente pelos sujeitos do contexto escolar. Há um isomorfismo entre o universo de possibilidades da mente e o universo de hipertextos informáticos (Serpa, 2000a) . Com o hipertexto, o significado dado ao conhecimento produzido no âmbito local pode ser socializado, pode ser conectado, via link, com outros significados dados em outros contextos, estabelecendo a convivência e a vivência com as diversidades.

Pode-se dizer, então, que o hipertexto é o grande divisor de águas entre a comunicação massiva e a comunicação interativa. Pode-se dizer, enfim, que o ‘hipertexto é essencialmente um sistema interativo’ e que, materializado no chip, ele faz deste o ‘ícone por excelência da complexidade em nosso tempo’. (Silva, 2000:15)

Referências

GUIMARÃES Jr, Mário José Lopes.  A cibercultura e o surgimento de novas formas de sociabilidade. 1997. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~guima/ciber.html>. Acesso em: 07 maio 1999.

LEMOS, André; CARDOSO, Cláudio, et al. Uma sala de aula no ciberespaço: reflexões e sugestões a partir de uma experiência de ensino pela Internet. Bahia Análise & Dados, Salvador, SEI, v. 9, n. 1, julho 1999. p. 68-76. 

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. 208 p.

NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 214 p.

RIBEIRO, José Carlos S.; JUCÁ, Vládia Jamile. A experiência da hipertextualidade e suas inversões. 1998. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/hipertexto/experien1.html>. Acesso em: 07 maio 1999.

SERPA, Luiz Felippe Perret. Orientação coletiva. In: Reunião do grupo de pesquisa Educação e Comunicação da FACED/UFBA. Salvador: 16 de novembro de 2000a,

SERPA, Luiz Felippe Perret. Uma construção topológica da diferença como fundante. 2001. Disponível em: <http://www.faced.ufba.br/~dept02/repege/revista_repege/diferenca_fundante.htm>. Acesso em: 24 de agosto de 2002.

SILVA, Marco. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000. 230 p.